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sexta-feira, 15 de março de 2013

Kant, por Will Durant

Kant  nasceu em 1724 em Kiinigsberg, Prússia.
Com a exceção de um pequeno período em que
ensinou numa aldeia próxima, êsse sossegado professor,
que gostava tanto de discorrer sôbre a geografia

Immanuel Kant

e etnologia de terras distantes, nunca saiu de sua
cidade natal. Pertencia a uma familia pobre que saíra
da Escócia uns cern anos antes do nascimento de
Emanuel. Sua mãe era Pietista, isto é, membro de uma
seita religiosa que, como a dos Metodistas da Inglaterra,
fazia questão de um rigor e severidade absolutos
nas práticas e na crença religiosa. Nosso filósofo

foi tão mergulhado em religião da manhã à noite que
por um lado teve uma reação que o levou a manter-se
afastado de igrejas durante tôda sua vida adulta; por
outro lado conservou até ao fim o cunho sombrio do
puritano alemão e sentiu, ao ir envelhecendo, um
forte desejo de preservar para si mesmo e para o
mundo as partes essenciais, ao menos, da fé tão pro-
fundamente nêle inculcada por sua mãe.
Mas um jovem que se desenvolveu na era de
Frederico e de Voltaire não podia isolar-se da corrente
cética daquela época. Kant foi profundamente influenciado
até mesmo por homens a quem mais tarde
pretendeu refutar e talvez mais do que todo pelo seu
inimigo favorito, Hume; veremos mais adiante o
extraordinário fenômeno de um filósofo transcendendo
o conservadorismo de sua maturidade e retornando
cai seu quase último trabalho, próximo à
idade de setenta anos, a uni liberalismo viril que lhe
haveria trazido o martírio se sua idade e fama não o
protegessem. Mesmo no meio de seu trabalho de
restauração religiosa ouvimos, com surpreendente
freqüência, Os sons de um ou outro Kant a quem
poderíamos quase confundir com uni Voltaire. Schopenhauer
achava "não ser o menor dos méritos de
Frederico o Grande o fato de que sob seu govêrno
Kant pudesse se desenvolver e ousar publicar sua
Critica da Razão Pura. Dificilmente, sob qualquer
outro govêrno, poderia um professor assalariado"
(conseqüentemente, na Alemanha, um empregado do
govêrno) "aventurar-se a tal coisa. Kant foi obrigado
a prometer ao sucessor imediato do grande Rei que
 não escreveria mais." (5 Foi em gratidão a essa liberdade
que Kant dedicou a Critica a Zedlitz, o avançado
e progressista Ministro da Educação de Frederico.
Em 1755, Kant começou seu trabalho conto instrutor
da Universidade de Künigsberg. Durante quinze
anos deixaram-no neste pôsto subalterno; duas vêzes
foi recusado seu pedido de se tornar professor. Finalmente,
ein 1770, foi nomeado professor de lógica e
metafísica. Após muitos anos de experiência corno
professor, escreveu um livro didático sôbre pedagogia
e costumava dizer dêle que continha muitos preceitos
excelentes nenhum dos quais êle jamais aplicara.
E no entanto foi talvez um melhor professor do que
escritor; duas gerações de estudantes aprenderam a
amá-lo. Uni de seus princípios práticos era prestar
mais atenção aos alunos de capacidade média; os
tolos, dizia êle. não podiam ser auxiliados, e os gênios
tratariam de si mesmos.
7. O Mundo como Vontade e Representação, Londres. 1883; vol.
II, p. 133.
Ninguém esperava que ele espantasse o mundo
com um nôvo sistema metafísico; espantar qualquer
pessoa parecia ser a última coisa que esse tímido emodesto
 professor faria. Êle próprio não parecia ter
grandes esperanças nesse setor; na idade de quarenta
e dois anos escreveu: "Tenha a sorte de ser um
amante da metafísica; mas minha amante até agora
poucos favores me dispensou." (8) Nesse tempo falava
no "abismo sem fundo da metafísica" e da metafísica
como "um oceano escuro sem praias ou farol," jun
cacto de muitos destroços filosóficos. ( g) Chegava até a
atacar os metafísicos como sendo aqueles que habitam
as altas rôrres da especulação, 'onde em geral há
8. Citado por Royce, The Spirit of Modern Philosophy (C Espirito
da Filosofia Moderna); Boston 1892; p. 120.
9. Citado por Paulsen, Emanuel Kant; Nova Iorque, 1910; p. 82.   
muito vento." (10) Êle não previu que a maior de
tôdas as tempestades metafísicas seria provocada por
seu próprio sôpro.
Durante esses anos sossegados seus interesses eram
antes físicos do que metafísicos. Escrevia sôbre plantas,
terremotos, incêndios, ventos, éter, vulcões, geo
grafia, etnologia e uma centena de outras coisas desse
tipo que não se confunde facilmente com metafísica.
Sua Teoria dos Céus (1755) propunha algo muito
semelhante à hipótese oebular de Laplace e tentava
uma explicação mecânica de todo movimento e desenvolvimento
sideral. Todos os planetas, achava Kant,
foram ou serão habitados e aqueles mais afastados do
sol, tendo passado por uni período mais longo de cres
10. Ibid., p. 56.
cimento, terão provàvelmente uma espécie mais elevada
de organismos inteligentes do que os até agora
produzidos em nosso planeta. Sua Antropologia, (composta
em 1798, das conferências de tôda uma vida),
sugeria a possibilidade da origem animal do homem.
Kant argumentava que se a criança, nas épocas remotas
quando o homem ainda estava à mercê das feras
selvagens, chorasse tão alto ao chegar ao mundo como
o faz agora, teria sido descoberta e comida pelos animais
ferozes; conseqüentemente, o provável era que o
homem, de início, tivesse sido muito diferente daquele
em que se transformara na civilização. E aí Kant
prosseguiu, sutilmente: "Como a natureza agiu para
produzir esse desenvolvimento e como foi auxiliada
nós não sabemos. Esse comentário nos leva longe.
Sugere a idéia de que talvez o atual período da história,
por ocasião de alguma grande revolução física,
possa ser seguido de um terceiro, no qual um orangotango
ou um chimpanzé desenvolveriam os órgãos que
servem para andar, tocar e falar, transformando-os na
estrutura articulada de um ser humano com um órgão
central a ser utilizado para a compreensão, e gradualmente
iriam progredindo sob o treinamento das
instituições sociais." Terá esse emprego do condicional
sido a cautelosa maneira indireta de Kant apresentar
seu ponto de vista sob o modo como o homem realmente
se desenvolvera partindo do animal? (11)
Assim, observamos o desenvolvimento lento desse
homem pequenino, com cêrca de um metro e meio,
modesto, encolhido e contendo no entanto em sua
cabeça, ou gerando dentro dela, a revolução de maior
alcance na filosofia moderna. A vida de Kant, diz um
11. Isso é o que sugere Wallact — Kant, Filadélfia, 1882, p. 115
de seus biógrafos, passou como o mais regular dos
verbos regulares. "Levantando, tomando café, escrevendo,
lecionando, jantando, andando," diz Heine, —
"cada um tinha sua hora determinada. E quando
Emanuel Kant, num casaco cinzento, bengala na mão,
surgia à porta de sua casa e dirigia-se para uma
pequena avenida de tílias, que ainda é chamada o
"Passeio do Filósofo", os vizinhos sabiam que eram
exatamente três e meia. Passeava assim para cima e
para baixo, durante tôdas as estações do ano; quando
o tempo estava sombrio ou nuvens cinzentas ameaça
vam chuva, seu velho empregado Lanlpe era visto
seguindo-o ansiosamente, com um vasto guarda-chuva
debaixo do braço, como o símbolo da Prudência."
Seu físico era tão frágil que tinha de submeter-se
a um severo regime de vida: achava mais seguro faze-lo
sem médico e assim viveu até aos oitenta. Aos setenta
escreveu uni ensaio, -Do Poder da Mente em Dominar
a Sensação de Doença por Fórça de Decisão. -Uni de
seus principios favoritos era respirar sOmente através
do nariz, especialmente quando ;to ar assim
sendo, no outono, inverno e primavera não permitia
que ninguém lhe dirigisse a palavra durante seus passeios
diários; é preferível o silêncio a um resfriado.
Aplicava filosofia até na maneira de segurar suas
meias -- por tiras que entravam nos bolsos das calças,
onde terminavam em elásticos contidos em pequenas
..:rixas. (' 2.) Fie pensava a lurado sôbre as coisas antes
de agi ' e, conseqüentemente, ficou solteiro a vida
tida. Duas vezes pensou em pedir a mão de alguém;
mas refletia tanto tempo que, num dos casos, a senhorita
casou-se com um cavalheiro mais ousado e no
outro a jovem mudou-se de Kiinigsberg antes de o
filósofo chegar a uma decisão. Talvez achasse, «imo
Nieusche, que o casamento o atrapalharia na busca
honesta da verdade: "'um homem casado" , costumava
dizer tallevrand, -fará qualquer coisa por dinheiro.E
Kant escrevera, aos vinte e dois anos , com (0,30 o
entusiasmo sadio da mocidade onipotente: "Já me
decidi quanto á linha que pretendo manter. tomarei
men rumo e nada me impedirá dc segui-lo."
E assim persistiu. llli:1¦eNsalitto a pobreza e a
obscuridade , rascunhando, escre¦endo e reescrevendo
sua magnum opus durante quase quinze anos: terminando-
a sOmente t-ni 1781. quando estava com cinqüenta
e sete anos. Nunca um homem amadureceu
tão lentamente, mt ,.s, também, nunca um livro surpreendeu
e perturbou todo o mundo.

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